Integrantes do Coletivo Zaha da Arquitetura contam que a denúncia é importante, pois omissão ainda impede que casos diminuam.

Por Enrico Bertagnoli e Nina Gattis

O assédio contra mulheres, antes um assunto abafado, agora é tema recorrente também na Universidade. O local em que mais ocorrem abusos, são festas e trotes, segundo alunas do Mackenzie. Em conversa com estudantes pelo campus Higienópolis, algumas declararam ter sofrido abuso de forma muito grave nesses espaços, inclusive por homens que já faziam parte de seu círculo de amizade. “As piores são as festas do Mack, principalmente o Bota Fora”, diz uma aluna de Administração sobre a confraternização na qual os participantes devem ir fantasiados. De acordo com ela, que prefere não ser identificada, além do assédio sofrido por parte de colegas, professores também dão investidas. “No começo a gente levava na brincadeira, achávamos que eram piadinhas. Toda mulher demora pra entender o que é abuso.”

Alunas de Direito ouvidas por nossa reportagem relatam vários casos de assédio, inclusive de estudantes que já deixaram o curso por conta de falas abusivas e do comportamento grotesco de alguns professores que confundem a sala de aula com um ambiente onde se pode ter intimidade com as alunas.

O assédio por parte de professores levou alunas do curso de Arquitetura a espalhar cartazes com frases ditas por professores em sala de aula. Vanessa Pimentel, Juliana Gilardino e Lívia Olivares, integrantes do Coletivo Feminista Zaha, contam que o grupo surgiu após um episódio em que um de seus docentes fez piada sobre as acusações de estupro contra o médico Roger Abdelmassih – preso em 2014 por cometer 56 estupros em seu consultório – dizendo que “era reprodução assistida” e que “isso [estupro] estava nas normas da ginecologia.” Diversas alunas se uniram e denunciaram falas machistas, misóginas e sexistas que escutaram durante as aulas de vários outros docentes, como “prefiro bater em morenas, pois não deixa marca” e “seu trabalho ‘tá’ ruim, você podia ter pelo menos vindo com uma saia mais curta.” Segundo Vanessa, o professor foi suspenso, mas já voltou à ativa.

Ao falarem sobre suas experiências, as alunas do Coletivo lembram de como é difícil reagir a casos de assédio e o porquê da necessidade de união e de grupos de apoio. “Não dá para uma menina peitar um professor sozinha, o Coletivo ajuda nisso. Um homem com 70 anos, do alto escalão, que dá aula aqui há muito tempo não sai [do cargo] por nada”, diz Vanessa. De acordo com o Coletivo Zaha, os professores tomam muito mais cuidado na hora de falar coisas que podem atingir as alunas e, quando o fazem, pedem desculpas e ficam sem graça mesmo com dificuldades de reconhecerem seus erros, afirmam suas integrantes. “O bizarro é saber que teremos que lidar com essas adversidades por muito tempo ainda”, lamenta Juliana sobre as condições de estudo e carreira.

Lívia conta que as vítimas, geralmente, procuram ajuda do Coletivo pela página do Facebook, relatando o ocorrido e, a partir daí, o grupo toma alguma medida. “Até então, a maioria dos assédios foi por parte dos professores e procuramos resolver com carta de repúdio, pedido de posicionamento do professor e da diretoria perante o caso e punição do professor no meio acadêmico.” Já quando o assédio parte dos próprios alunos, ela conta que o Coletivo tenta resolver conversando com os envolvidos. “Mas acreditamos que caso ocorra episódios mais drásticos outras medidas serão avaliadas. Além disso, tentamos prevenir tais assédios com ações em festas ou jogos e para facilitar a comunicação caso alguém precise de ajuda usamos fitas no braço, por exemplo.”

“No caso das vítimas sentimos que quebramos a naturalização dos assédios e revelamos casos que muitos não sabiam, assim elas sentem a liberdade de nos procurar e contar sobre algo que precisa de acompanhamento”, conta Lívia. Ela alerta que, apesar da mobilização, o número de assédios não caiu, devido à omissão dos mesmos e que, por isso, a delação é inevitável.

As componentes do Coletivo dizem que nova direção do curso de Arquitetura está sendo muito solícita, com a gestão de uma mulher que ajuda a divulgar os eventos e apoia as decisões do grupo. Lívia conta que a nova diretoria se mantém aberta para ouvir relatos, reclamações e pedidos que o Coletivo julga necessário, assim como acompanhar novos projetos que envolvem a faculdade e seus espaços.

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Foto: Divulgação/Coletivo Zaha
Cartaz exposto no prédio de arquitetura

Juliana conta que fazer parte do Zaha está alterando também o posicionamento de seu irmão, que tem ela como espelho e se policia, mas ainda não repreende seus amigos que passam dos limites. “Se você não leva isso para pessoas próximas a você, se não consegue passar isso para eles, imagine se vai conseguir mudar a visão da sociedade.”

Vários alunos homens ouvidos por nossa reportagem dizem ter mudado a reação para com amigos que cometem assédio.  Enquanto alguns afirmam se sentirem “impotentes” ou acham a situação “normal”, outros assumem que antigamente davam risada, mas que “hoje a consciência já é diferente.”

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