Seguindo as lutas dos coletivos Zaha e Dilma, o Psicoletivo promove reuniões e debates na Psicologia.

Por Caroline Sargologos e Letícia Damásio

 

O trote universitário no segundo semestre do ano passado assustou a estudante Giovana Moura, 19 anos, e um grupo de alunas da Psicologia. Veteranos pressionavam calouras a consumir bebidas alcoólicas, cortavam suas roupas e as submetiam a várias humilhações. Foi quando Giovana e as colegas decidiram intervir, mostrando às calouras que podiam contar com o apoio do Psicoletivo Feminista do Mackenzie.

“No dia do trote solidário entregamos panfletos falando sobre o coletivo e que as calouras não estariam sozinhas”, conta Giovana, do quarto semestre de Psicologia na UPM e uma das fundadoras do coletivo. Segundo ela, inicialmente houve resistência por parte dos veteranos, os quais “queriam fazer ‘brincadeiras’ sem o consentimento das calouras”.

No primeiro semestre de 2017, a intervenção do coletivo fez com que o trote fosse mais organizado e respeitoso. “Foi reconfortante ter em quem se apoiar caso algo acontecesse, isso especialmente falando dos trotes, os quais são malvistos e temidos pelas vestibulandas”, disse a estudante do primeiro semestre de Psicologia, Clara Poio Idemori.  Segundo Giovana, outra importante conquista do coletivo em relação ao trote foi a proibição do uso de alimentos nas brincadeiras de rua, evitando o desperdício de comida.

A partir da ação no trote, o grupo foi crescendo e ganhando novos membros. Debates e conversas passaram a ser organizadas na internet e no prédio da Psicologia. No ano passado, o coletivo conseguiu incluir uma roda de conversa na Semana da Psicologia. “Queremos mostrar para as meninas que elas podem ter um lugar de apoio e de conhecimento dentro da faculdade, que é repleta de situações machistas, racistas e homofóbicas”, diz Giovana. “Acho importante nos unirmos para discutir, conhecer e entender situações que acontecem no dia a dia das mulheres e da sociedade.”

A Frente Feminista é o coletivo que abrange todos os cursos do Mackenzie, assim como o AfroMack e o Coletivo LGBT.  Mas alguns cursos têm o seu próprio grupo, como o Psicoletivo, o Zaha, da Arquitetura, e o Dilma, do Direito.

“Desde a escola as lutas feministas me chamavam muita atenção, inclusive eu era tachada como ‘a feminista’ da sala”, diz Giulia Parnes, estudante do terceiro semestre de Psicologia e integrante do grupo. Logo quando ingressou no Mackenzie, em 2015, conversou muito com uma professora sobre essas questões e o quão “estranho era o curso de Psicologia não ter um coletivo feminista”. Em 2016, Giulia trancou a matrícula para realizar um intercâmbio e, ao retornar, em 2017, procurou o Psicoletivo. “Temos um grupo no WhatsApp, no qual discutimos os acontecimentos recentes”, conta a estudante.

Já Clara, que entrou no grupo em seu primeiro semestre, diz que o assunto a interessava tanto pessoalmente, como profissionalmente. “As meninas eram receptivas, comunicativas e me passaram uma sensação de amizade e conforto, então procurei me integrar ao grupo”, acrescenta. Clara ressalta também o quão importante para ela foi encontrar um grupo como esse sendo “caloura em uma cidade estranha para mim”.

 

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Foto: Letícia Damásio

Empenhada em proporcionar discussões com a temática dos gêneros em sala de aula e nos demais ambientes acadêmicos, Mirtes de Moraes, professora e doutora em História Social pela PUC-SP, desenvolveu – juntamente com a professora Rosana Schwartz – um núcleo de pesquisa de raça, gênero e etnia (GERE).

Na opinião de Mirtes, a formação dos coletivos é motivada, principalmente, pela necessidade de colocar em pauta inquietações do âmbito social que devem ser debatidas. Para ela, o crescimento cada vez mais expressivo desses grupos pode ser atribuído, também, às redes sociais. “As redes sociais unem forças e permitem que não haja um discurso isolado”, afirma.

Sobre o trote universitário, Mirtes observa que durante a brincadeira, “as meninas ficam em uma situação completamente vulnerável”. Para ela, o trote deve ser um rito de passagem vinculado ao respeito entre calouros e veteranos.

De acordo com a professora, os coletivos são elementos fundamentais na universidade “porque apresentam questões sociais de uma forma politizada e permitem que outras facetas da universidade sejam apresentadas para o público”. Mirtes salienta ainda que os coletivos quebram estereótipos e construções culturais machistas, criadas pela sociedade conservadora. “É extremamente importante a presença de movimentos feministas, porque cada vez mais essas questões estão sendo abordadas, fazendo com que as mulheres se posicionem a respeito.”

Com esses ideais em pauta, o Psicoletivo Feminista realiza reuniões, mantendo em mente a disponibilidade das integrantes. As rodas de conversa são realizadas de uma vez por semana, a duas vezes por mês. Os temas discutidos são, geralmente, sugeridos pelas próprias alunas. De acordo com Clara, o coletivo procura englobar todo tipo de feminismo, além de sempre estar aberto para novas propostas. “O ambiente das reuniões é definitivamente agradável, por termos voz e não haver um ‘líder’, podemos nos sentir mais à vontade e encontrar um lugar de paz e proteção”, comenta. Já para Giulia, “o clima de sororidade é bem presente, sempre que uma menina precisa de qualquer apoio todas se dispõem a ajudar”.

Giovana prevê grandes desafios para o Psicoletivo. Ela ressalta que o grupo pretende atuar não apenas no meio universitário, mas também externamente. “Temos em mente fazer intervenções diretas sobre diversos assuntos, porém tudo deve ser bem pensado e isso muitas vezes demanda tempo.” Até o momento, o grupo realizou apenas intervenções indiretas por meio da página no Facebook  “falando sobre alguns casos de preconceito que ocorreram no curso”, por exemplo. Para Giulia, o coletivo ainda está em fase de construção. “Somos um coletivo novo, formado ano passado; estamos criando mais força agora”, conclui Giovana.

 

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